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Creme dental ainda é o mais indicado, já que contém produtos que fortalecem os dentes e até ajudam a clareá-los; flúor não é vilão desde que não seja engolido

Quando a chef de cozinha e apresentadora Bela Gil, filha de Gilberto Gil, postou no Facebook que usar cúrcuma era a melhor forma de limpar os dentes, o furor foi instantâneo: internautas se perguntavam se valia mesmo a pena trocar o creme dental com flúor por um tempero em pó, usado em alimentos e receitas.

Bela Gil postou no Facebook que usa cúrcuma para limpar os dentes
Reprodução/Facebook
Bela Gil postou no Facebook que usa cúrcuma para limpar os dentes

Dentistas consultados pelo iG disseram que não, não vale a pena. Ao menos por enquanto. A dentista Nathalia Moraes, conta que ainda não há estudos realmente conclusivos sobre o uso da cúrcuma.

“Precisamos ainda de um estudo respaldável para uso em pacientes. Temos produtos na pasta de dente que realmente precisamos para manter uma boa higiene bucal, e o principal deles é o flúor. Existe flúor na água, mas não é suficiente para manter a pessoa livre de doenças bucais e controlar a placa bacteriana”, explica ela.

Paulo Zahr, dentista e presidente da Odontocompany, diz que produtos naturais podem ser usados para a limpeza dos dentes, mas que somente o creme dental oferece todos os benefícios, já que carrega compostos que agem como um sabão, clareador dental, flúor, xilitol e, de quebra, ainda traz uma sensação gostosa de higiene.

“Se a pessoa come algum alimento que produz odor, o creme dental pode ajudar a neutralizar isso”.

A cúrcuma, segundo ele, pode ser efetiva na limpeza dos dentes porque vai ajudar a fazer fricção na superfície destas estruturas.

“O benefício está simplesmente no ato de escovar, a seco ou com água. Uma escovação a seco, por exemplo, é indicada para remoção da placa dental”, diz.

“A pimenta-do-reino faria o mesmo efeito, já que é o pó que faz o benefício, não exatamente o tipo do produto”, brinca ele.

O dentista acha que, em longo prazo, a cúrcuma pode até manchar os dentes, já que é uma especiaria que solta muita cor. Além disso, Bela Gil disse no post que a cúrcuma é anti-inflamatória e antibacteriana. Zahr rebate: se isso for comprovado, não faz sentido usá-la diariamente.

“Só se usa um anti-inflamatório se houver uma inflamação. Ninguém usa um antibiótico, mesmo que natural, se não tem bactérias para exterminar. Mesmo que seja algo natural, é preciso entender que há muitas coisas naturais que fazem mal. Não é porque se tira do pé [planta] que faz bem”, aponta.

Inúmeros outros produtos são, desde os primórdios, usados para limpar os dentes, quando não existia o creme dental. Neles entram a árvore de Nim (azadirachta indica) , a maçã e o pó de carvão queimado (cinzas).

“Os ramos da árvore de Nim foram muitos usados. Na Índia ainda se usa muito. Ela tem uma propriedade curativa, sedante, traz um conforto para a boca. Claro que não tem a facilidade da pasta de dente, mas é bom”, explica Zahr.

A maçã, segundo o médico, não substitui uma escovação, mas neutraliza o pH da boca deixando os dentes menos susceptíveis aos ataques das bactérias e formação de cárie.

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“Mas ela não limpa o dente. Tem de usar fio dental, porque pode reter alimento entre os dentes e fermentar”.

Além disso, há o pó de carvão queimado. “Nada mais é do que a lenha. O que se fazia antigamente era pegar esse pó, colocar dentro de uma meia e passar nos dentes com força, para deixar ele um pouco mais branco”, conta.

“De fato, esse pó tem capacidade de branquear um pouco sim, mas deixou de ser utilizado porque hoje temos um produto – o creme dental! – com muito mais efeito”.

Polêmica do flúor

Um dos argumentos de Bela Gil, em seu post na rede social, foi o de que a cúrcuma era livre de flúor. Mas, por que o flúor é tão condenado por aqueles que seguem um estilo de vida natural? Segundo Paulo Zahr, o flúor em excesso na infância causa fluorose, que são manchas brancas nos dentes permanentes, provocando um desconforto estético.

“Na fase gestacional, na formação do feto – entre duas e quatro semanas – se a mãe está muito bem de flúor e vem tomando água comum, a criança vai nascer e desenvolver uma boa dentição”, explica ele.

“Quando ela está na fase entre um e três anos, recomendamos pasta sem flúor porque não conseguimos ter um controle de quanto essa criança vai engolir além do uso tópico, que é passar, cuspir e enxaguar. Se ela acaba engolindo, há o perigo de dar fluorose”, alerta.

Mesmo sem usar pasta com flúor, os dentes da criança até essa idade, se bem cuidados, vão se desenvolver naturalmente, já que ela provavelmente estará ingerindo água com flúor. A falta de flúor, segundo o dentista, é pior que o excesso dele.

Receitas sem comprovação

Esse tipo de recomendação não aparece somente quando se trata dos dentes. Em muitas partes da medicina há receitinhas caseiras que passam de boca em boca.

O cardiologista do Instituto do Coração (Incor), Alexandre Soeiro, diz que ouve dos pacientes algumas receitas, mas que não se incomoda porque se trata apenas de alimentos “milagrosos” e os pacientes não deixam de tomar o medicamento receitado por ele, mas usam esses “truques” em paralelo.

“Na cardiologia ouvimos muito que cebola e alho afinam o sangue, o pepino também. Mas não há nada comprovado”, diz.

Tomar água de berinjela logo ao amanhecer é um hábito comum entre pacientes cardiológicos.

“Eles tomam sucos detox, coisas que, dizem, faz o colesterol ficar mais baixo. Não vejo problema desde que, obviamente, não interrompam o tratamento medicamentoso por causa disso”. Além disso, ele sempre avisa os pacientes que nenhuma dessas crendices (aquelas sem comprovação científica) deve substituir as refeições.

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