O câncer de mama ainda assombra muitas mulheres. Com ele vem o tratamento árduo com sessões de quimioterapia e radioterapia e cirurgias como a mastectomia, que pode incluir a retirada total da mama. Depois desses processos, algumas mulheres podem sofrer complicações. 

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Câncer de mama




"São vários os tipos de cirurgia e depende muito do caso de cada paciente. As complicações também podem variar", diz Evandro Fallacci Mateus, mastologista e oncoplástico da Clínica da Mulher do Hospital 9 de Julho.

"No caso de mastectomia total [quando há a retirada da mama e o esvaziamento da axila], as complicações são maiores. Pode ocorrer um comprometimento dos movimentos do braço, sensação de peso e lindefema [inchaço crônico – na cirurgia são retirados os linfonodos, que são responsáveis pela drenagem do sistema linfático. Sem eles, há acúmulo de líquido]", lista Evandro. 

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Se a paciente passou por uma cirurgia conservadora, na qual é preservada a mama e retirado apenas o tumor, o risco de complicação é menor. Segundo o médico, geralmente não se tem perda de movimento, apenas um formigamento e um pouco de sensação de peso. 

Game para se movimentar

Em ambos os casos, as mulheres podem fazer fisioterapia para recuperar movimentos e diminuir o inchaço e o tal "braço pesado". Se não foi feita uma reconstrução da mama, segundo Evandro, a fisioterapia pode ser iniciada logo após a cirurgia. Para quem fez a reconstrução, é recomendado esperar de 15 a 30 dias. 

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"E nos primeiros dias é bom evitar cargas ou movimentos radicais, mas quanto antes puder começar os exercícios, melhor. Vai ajudar a recuperar o arco do movimento e ao retorno do líquido das axilas, a linfa", fala o oncologista Victor Marcondes. 

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Divulgação
Game foi criado por Izabela dos Santos Mendes, da Universidade do Vale do Paraíba


A fisioterapeuta  e doutoranda Izabela dos Santos Mendes criou um game na Universidade do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, para ajudar nesse momento pós-cirurgico. 

Segundo Izabela, o game é um jogo de realidade virtual, no qual a paciente de posiciona diante de um sensor e precisa reproduzir movimentos. "O protocolo foi elaborado de acordo com os exercícios convencionais da fisioterapia. As pacientes vêm ao laboratório da Universidade e são 10 sessões, três vezes por semana", explica. 

A estudante de pedagogia Almeirinda da Paz de Almeida Santos, de 35 anos, foi uma das mulheres a participar do projeto do game. Ela fez uma mastectomia total em dezembro de 2014 e segue em tratamento. 

"Comecei na Univap em fevereiro e mexia só um pouquinho o braço. Tinha medo. Retirei toda a mama e parte da axila. O game começou levinho e fui mexendo o braço aos poucos. Senti melhora na terceira sessão, já. Agora, o movimento do braço voltou quase ao normal", conta Almeirinda. "Eles foram meus anjos da guarda", completa. 

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Arquivo pessoal
Maria Arlí: depois do tratamento, ela esbanja bom humor por aí

Maria Arli Merenice de Abreu Simão, professora de 65 anos, também fez as sessões de fisioterapia com o game. A cirurgia dela foi mais simples. Ela descobriu o câncer de mama no ano passado, fez sessões de radioterapia e uma cirurgia conservadora, retirando apenas o tumor e parte do tecido da mama. 

Entretanto, Maria teve problemas com os movimentos assim que descobriu a doença. "Estava em uma fase muito crítica. Quando fiquei sabendo o diagnóstico, tive um problema emocional e travou tudo: ombro, pescoço, braços. Não conseguia abotoar o sutiã. Perdi o movimento de pinçar as coisas e nem conseguia puxar a coberta a noite", lembra. 

A professora fez tratamento com osteopatia e, depois da cirurgia, ficou sabendo do game na universidade pelo filho e colegas dele. "No começo chorei muito e senti dor. Descia aquele morro da universidade e não queria mais voltar. Mas depois da terceira sessão, cheguei em casa e estava sozinha. Meu tênis desamarrou. Devagarzinho eu fui abaixando, com um pouco de dor, consegui arramar! Fiquei tão feliz e pensei: 'vou continuar'". 

Game para o convívio social

Mais do que ajudar na recuperação de movimentos ou a combater o inchaço, o game é uma forma de inclusão social das pacientes depois da cirurgia. "Eu me sinto feliz e orgulhosa por conseguir me movimentar, mas também porque o pessoal ajuda muito a gente. E o bom humor cura 98% dos nossos males. Lá, estão sempre de bom humor", comenta Maria Arlí, agora vive com o sorriso no rosto. 

"Além dos exercícios, o pessoal ajuda com muita conversa. Eles falam sobre outras moças que tiveram o mesmo problema, para não desanimar. Dão coragem", diz Almerinda. "Acho que foi fundamental para mim. Falam para ficar tranquila, passam confiança", continua. 

"Geralmente elas [as pacientes] chegam bastante depressivas. No primeiro momento, conversamos e esclarecemos sobre a doença. Isso já traz um alívio", observa a fisioterapeuta Izabela dos Santos Mendes. As pacientes são encaminhadas pelos médicos e ela conta na equipe do game com fisioterapeutas e estudantes de engenharia biomédica, elétrica e da computação. 

Além dos exercícios, o programa é um incentivo para que as mulheres saiam da casa e retomem o convívio social. Segundo Evandro Fallacci Mateus, do hospital 9 de Julho, é importante cuidar do emocional e do bem-estar das pacientes, pois isso também ajuda durante e depois do tratamento de um câncer. 

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